19 de maio de 2009

Teatro de Marionetes



Lá em cima. Bem lá em cima, no topo de uma torre de concreto e aço quase arranhando o firmamento, ele brigava com Deus.

- Por que deixou que isso acontecesse? Você é invejoso e cruel!

A dor parecia dilacerar sua carne feito navalhas. Não era uma simples dor. Era a dor do corpo fundida com a alma.

A partir dali, precisaria viver sozinho a sua vida.

Ela era o seu mundo. Sua luz, seu caminho, seu céu, o porto seguro onde queria atracar para sempre. Linda. Grandes olhos azuis que pareciam um céu de abril. Sorriso farto, rosto fino emoldurado por longos e fulvos cabelos. Seu corpo era de causar inveja a Rodin.

Ele um sujeito normal. Sem predicados, nem adjetivos. Nem belo e nem feio. Mais um rosto entre milhões. Passava longe de Allain Delon.

Não tinha vontade própria. Ser vegetativo e pálido. Sempre a caminhar sob sombras dos longos cabelos cor de ouro. O brilho dos olhos cor de oceano hipnotizava, atraia, destruía.
Há dois meses a conhecera na Praça da Liberdade. Enquanto pintava o retrato de uma velha desdentada, ela o observa, hipnotizava.

- Você é bom... - disse com voz rouca e sensual.
- Obrigado, é muita gentileza sua...
- Pode me pintar?

Seus olhos disparavam feixes invisíveis de sedução e encantamento.

- Claro. – gaguejou.
- Então o que está esperando?
Ela sentou-se num traste de banco.

Como queria ter uma poltrona confortável pra ela sentar. – Pensou.

Com traços rápidos e descompassados ia esboçando as linhas que formariam um rosto lindo e maldito.

- Pronto! Acabei...
- Mas já?! Foi muito rápido...
- Ficou muito bom! Quanto é? – Ela abriu a bolsa.
- Por favor! Não vou cobrar...
- Claro que vai cobrar! Você trabalhou, tem que receber! – Disse convicta.
- Por favor... É um presente. – nunca antes pintara imagem tão bela.
- Já que é um presente, aceito.
- Fico feliz.

Ah! Como queria poder tocá-la! – suspirou.

No quarto minúsculo da pensão barata, dezenas de retratos da mulher com ar de anjo e cheiro de morte. Ele não conseguia apagar aquele rosto de sua cabeça, não sabia pintar outra coisa.

- Quando a verei de novo? – uma pergunta que soava como um mantra sombrio e cinza.

Trancou-se num mundo que não era seu. Ele pertencia a ela.

Sentado na mesma Praça, embalado pelo tédio, observava o vai-e-vem das nuvens no céu carregado de poeira e de saudade.

- Que surpresa!

Nem mil anos apagaria de sua memória aquela sinfonia de querubins tocada em uníssono.

Obrigado meu Deus! – Pensou.

- Você... – seu corpo tremia.
- Achei que podia encontrá-lo aqui novamente...

Ele não acreditava.

- Você quer outro retrato?
- Não. Quero você!
- O que?

Seu poder de sedução era incrível. E ela o adorava. Uma mulher excêntrica gostava de ver a dor de seus semelhantes. Ser superior, beleza superior. Bruxa do jogo da sedução. Naquele dia arrebatara mais uma marionete para a sua coleção. Os movimentos dele eram regidos pelas cordas que ela balançava. Um homem marionete, uma marionete com cara de homem.
Dias de diversão. Ela adorava fazê-lo dançar; correr, pular. Ensinou-o a arte de amar. Balançava seu corpo, sua alma, seu ser. O trágico teatro do homem marionete era constante, seus dias eram em virtude das vontades dela, seus passos eram guiados por ela.

- Ah... Como te amo!
- Como? Você me ama? – Sua voz soou com desdém.
- Amo com todas as forças da minha alma!
- Você não pode me amar! – Seu semblante era frio.
- Mas... Por que não?
- Porque não deixei você amar!
- Você não manda no amor!
- Mando em você! E agora digo que acabou!
- Não pode fazer isso comigo...
- Sigo as minhas vontades!
Não deu satisfação e saiu.

Lá em cima. Bem lá em cima, no topo de uma torre de concreto e aço quase arranhando o firmamento, ele brigava com Deus.

- O que aconteceu? Você é invejoso e cruel!

Mirava a calçada fria e cinza daquela altura era apenas um filete apagado. Esfregou os olhos e continuou sua briga.

- Hipócrita arrogante! Ela era o meu mundo! Tudo que sei devo a ela. O amor, a vida, a felicidade... Por que deixou que ela se fosse? Responda miserável!As unhas encravadas na pele do braço esquerdo. Um filete de sangue escorreu. - Exijo uma resposta!

Dois passos separavam-no do abismo. Mais uma vez olhou em direção da calçada. Vertigem. Tinha medo de altura.

- É isso que você quer? A solidão perpétua? Que seja feita a vossa vontade!Deu dois passos, virou-se e foi embora.

Lá embaixo a calçada cinza de concreto estava emoldurada por um manto de cabelos fulvos brilhantes. Os olhos azuis emitiam um estranho brilho mórbido. O corpo perfeitamente esculpido fora devastado, a boca aberta parecia querer gritar; implorar seu perdão. Talvez naquele último segundo declarou seu amor.

Era orgulhosa demais, não suportaria viver sem ausência de sua marionete preferida. No teatro de marionetes, apagaram-se as luzes e fecharam-se as cortinas. Ela descobriu o abandono do amor.