25 de maio de 2009

Conte-me seus segredos

Jogada confortavelmente no sofá marrom, ela observava a fumaça do cigarro subir em pequenas espirais azuis até se estraçalhar no teto encardido do apartamento, sua única distração naquele entardecer de domingo. A TV desligada. Não gostava de futebol, tão pouco dos programas dominicais. O ócio e o tédio faziam-lhe companhia. Levantou-se, esticou as pernas e os braços, bocejou, exorcizando seus fantasmas. Sua imagem refletida no espelho, os contornos suaves de seu rosto encantavam e enfeitiçavam. E seduzida por seus reflexos, tal qual Narciso, resolveu mostrar-se. Precisava da noite, necessitava de ar, de gente.

Uma chuva fina caía sobre a Savassi, encobrindo de negrume o céu belorizontino, escondendo as estrelas e apressando a noite. No bar, homens e mulheres se espremiam em busca de um lugar, de um sorriso, de calor humano. Uma voz rouca acompanhada pelos acordes dedilhados de um violão entoava o Clube da Esquina. Poesia e música que acalentavam ouvidos e corações.

Ele estava sentado na mesa de sempre junto à varanda, precisava de oxigênio natural e não reciclado. O barulho dos carros passando era insignificante, tampouco se importava com a babel de vozes falando quase em uníssono. Os olhos perdidos na imensidão do horizonte demonstravam certa tristeza. Ansiava vê-la. Admirar a beleza que o encantara por vezes seguidas. Queria sentir o sangue novamente em suas veias. Já sabia seu nome. Já sabia quem era.

Ela vestiu-se com esmero e sutileza realçando ainda mais sua beleza juvenil. Longos cabelos loiros emolduravam seu rosto bonito. Traços finos, pele rosada e bem cuidada. Olhos azuis intensos. Passou por ele, passos cadenciados e firmes, numa sinfonia de graça e charme. A calça jeans ajustada ao corpo mostrava uma silhueta perfeita de pernas e quadril. No seu rastro invisível, podia sentir as notas florais do perfume destoando do cheiro nauseabundo de alcatrão e nicotina que impregnava o ambiente. Sentou-se duas mesas à sua frente. Parecia esperar por alguém. Passava as mãos sobre os cabelos, num ato que demonstrava ansiedade.

Ele degustava seu vinho favorito, fascinado e inebriado pelo líquido escarlate que inflamava seus desejos e segredos.

Ela por sua vez continuava impaciente, brigando com suas madeixas. Acendeu um cigarro deixando-o repousar entre seus dedos longos.

Ele tomou uma dose extra de coragem, passou as mãos sobre os cabelos salpicados de cinza ajeitando-os, deu um tapinha no rosto, levantou-se e foi até à mesa onde ela estava.

- Desculpe-me a ousadia, está esperando alguém?

Ela olhou como se já esperasse ser abordada. Lançou-lhe um sorriso branco e encantador, mostrando dentes perfeitos.

- Não. Resolvi admirar a noite.

Ele sentiu uma pontada de satisfação.

- Uma bonita frase. Posso dizer que sou um íntimo admirador dessa dama. Posso fazer-lhe companhia?
- Impossível!

Aquela negativa abrupta deixou-o atônito. Seu rosto enrugou, parecia ter envelhecido cinquenta anos em um segundo.

- Uma lenda grega conta que Nyx, a deusa da noite e dos segredos, amaldiçoa quem compartilha a noite escolhida para admirar... Fazendo-nos compartilhar os nossos segredos, e não estou nem um pouco interessada em dividir os meus. – completou a bela mulher.

Aquela justificativa fora uma porta escancarada para destilar seu conhecimento.

- Nyx? A domadora de homens e deuses? – ele sorriu.
- Entende de mitologia?
- Não. Entendo de segredos e de belas mulheres.
Ela retribuiu o sorriso fazendo um gesto para ele sentar.

Olharam-se por alguns longos instantes. Cada um tentando articular uma frase de efeito. Estudando-se como se fossem adversários em um jogo de pôquer. Um blefe errado e todas as fichas estariam perdidas.

- Laila Katina. – disse por fim.
- Roberto Drummond.
- O criador de Hilda Furacão?
- Apenas uma feliz coincidência!
- E o que o traz aqui essa noite?
- Solidão. Talvez medo de ficar em casa sozinho, fazendo companhia à minha garrafa de vinho e meu computador...
- Acho que compartilhamos do mesmo dilema.
- Vinho e computador?
- Não. Cigarros e sofá...
- Não gosto de cigarros... Mas, sofá é mal necessário. E o que mais faz quando não está fumando no sofá?

Laila gostou de imediato dele, tinha algo de familiar em seus olhos azuis e tristes. Não era belo, talvez tivesse o dobro de sua idade. Mas eram pormenores que não faziam diferença.

- Sou jornalista. Do caderno de economia...
- A senhora dinheiro! Muito bem. Então, fica fumando sentada no sofá e escrevendo sobre economia? Numa análise imediata, daquelas que os psicólogos adoram, podemos fazer um interessante jogo com a fumaça do cigarro subindo em espirais, rodando, girando, até se misturar ao ar poluído que somos obrigados a respirar... O que pode ser comparado à nossa economia, não é mesmo? É uma odisséia de altos e baixos...
- Engraçado, não havia percebido essa sutileza... E você, além de se embriagar com o vinho na companhia de seu computador e de fazer piadas com os outros, o que mais faz?
- Nada.
- Como nada? – ela se espantou com a resposta.
- Não gosta de segredos? – respondeu com outra pergunta.
- Gosto, mas não de estranhos.
- Os melhores segredos são de estranhos. Segredos de conhecidos passam a ser nossos... E já carregamos segredos demais, não acha?

Laila não respondeu de imediato. Pensou por alguns instantes. Sua inteligência apurada tentava equacionar até onde aquele charmoso estranho queria chegar.

- Então você carrega muitos segredos?
- Nem muito, nem pouco. O suficiente para quase perder uma vida... – a voz soou amarga.
- E um segredo vale uma vida?
- Depende do segredo e da vida... No meu caso, vale.
- É casado?
- Já fui... Há muito tempo. E você?
- Não tenho idade para isso. E nem saco!

Roberto deu uma sonora gargalhada. Gostava daquele mau humor gratuito que ela exibia.

- Uma bela resposta! Se tivesse pensado assim quando era da sua idade, não teria cometido tal insanidade...

Agora foi ela quem retribuiu a gargalhada.

- Foi tão ruim assim?
- Isso já é outro segredo, mas dá para perceber a delicadeza da situação nas entrelinhas...
- Você ainda não falou do seu segredo maior, aquele que vale uma vida. Como bem sabe, Nyx também é conhecida como uma deusa da morte...
- E quem falou em morte? Disse que o meu maior segredo vale uma vida.
- A vida de quem, posso saber?
- A sua!

Laila arregalou os olhos. Nunca fora de dar atenção a estranhos. Preferia ficar em seu apartamento ouvindo suas músicas, cuidando de sua pauta, de suas matérias. Às vezes alimentava seu blogue na internet, falando de futilidades, dando dicas de como conquistar o homem dos sonhos - quando ela mesma não sabia como fazer. Às vezes escrevia alguma crônica criticando a sociedade, a falta de cultura, o descaso de quem governa. Às vezes inventava um amor para chamar de seu.
Certa vez comprou um peixe. Não queria cachorro, nem gato eles davam trabalho demais. Era preto e branco e ela o batizou de Peixe. Não conseguiu um nome mais criativo, tipo: Zenão. Era Peixe e ponto final.
Recatada, tinha poucas amigas e quase nenhum amigo homem. Seu último namorado fora no tempo da faculdade, e isso já fazia mais de um ano. Frequentava algumas festas. Sempre cortejada, assediada e invejada por sua beleza, mas preferia a solidão. Ninguém era bom o suficiente. Resolvera trancar-se em seu mundo e observá-lo sob sua ótica racional. E logo naquele dia que resolvera buscar sentido para sua existência, dar vazão aos sentimentos reprimidos, aparece um desconhecido falando em tom ameaçador. Suas pernas estremeceram. Pensou em gritar, fazer um escândalo, mas sua voz emudecera como se fosse roubada, arrancada à força de sua garganta. Num átimo tentou levantar-se, mas não conseguiu.

Roberto por sua vez sempre fora um homem da vida. Boêmio por natureza, amante das artes e das mulheres. Não abria mão de um bom vinho, nem do teclado de seu computador, onde tecia estórias, costurava retalhos de imaginação, criando romances e contos que embalavam suas noites de insônia e geravam seu sustento. Era um artesão da palavra. Gostava dos flertes e vangloriava-se do seu poder de persuasão. Tinha sempre as respostas prontas. Era fluente em todos os assuntos: de moda à economia; de religião à bruxaria; de política à literatura. Recitava poemas, sussurrava músicas, mandava flores. Enfim, vivia sua vida da maneira como gostava, sem muitas preocupações. Porém, aquele dia era diferente, aquela mulher linda prostrada em sua frente mexia com todos os seus sentidos, despertava sentimentos incompreensíveis. Relutara por meses em se aproximar dela até que decidira finalizar o último capítulo do romance de sua vida.

- Você é louco?! – Laila tentou levantar-se.
- Por favor, espere. – disse segurando seu braço.
- Olha, não o conheço e tão pouco dei liberdade para fazer esse tipo de brincadeira. Por favor, saia da minha mesa, ou terei que chamar o segurança...

Os olhos de Roberto brilharam banhados pelas lágrimas que vertiam.

- Não queria saber o meu segredo? Meu segredo é você...

Laila não entendia. A voz dele era carregada de amor, ternura e mistério.

- Como posso ser seu segredo?
- Um segredo que separou nossas vidas...
- Quem diabos é você?

Uma lua majestosa abrira-se de repente no céu da Savassi derretendo-se em halos dourados. A voz rouca e o violão faziam-se ouvir Travessia de Milton Nascimento e Fernando Brant:
“Minha casa não é minha, e nem é meu este lugar, estou só e não resisto, muito tenho pra falar (...) meu caminho é de pedras, como posso sonharSonho feito de brisa, vento vem terminar, vou fechar o meu pranto (...) Eu não quero mais a morte, tenho muito que viver, vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer, já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver...”

Roberto não suportaria mais aguardar por aquele ponto final. A sagacidade esvaiu-se, e uma necessidade urgente de colocar para fora o segredo de sua vida, obrigou-o a falar de uma vez, sem rodeios, como toda a verdade deve ser dita; como todos os segredos devem ser revelados.

- Sou seu pai.