25 de maio de 2010

Conte-me seus segredos

Ela observava a fumaça do cigarro subir em pequenas espirais azuis até se estraçalhar no teto encardido do apartamento, sua única distração naquele entardecer de domingo. A TV desligada. Não gostava de futebol, tão pouco dos programas dominicais. O ócio e o tédio faziam-lhe companhia. Sua imagem refletida no espelho, os contornos suaves de seu rosto encantavam e enfeitiçavam. E seduzida por seus reflexos, tal qual Narciso, resolveu mostrar-se. Precisava da noite, necessitava de ar, de gente.

Uma chuva fina caía sobre a Savassi, encobrindo de negrume o céu belorizontino, escondendo as estrelas e apressando a noite. No bar, homens e mulheres se espremiam em busca de um lugar, de um sorriso, de calor humano.

Ele estava sentado na mesa de sempre, junto à varanda, precisava de oxigênio natural e não reciclado. Os olhos perdidos na imensidão do horizonte demonstravam certa tristeza. Ansiava vê-la. Admirar a beleza que o encantara por vezes seguidas. Queria sentir o sangue novamente em suas veias. Já sabia seu nome. Já sabia quem era.

Ela vestiu-se com esmero e sutileza realçando ainda mais sua beleza juvenil. Longos cabelos loiros emolduravam seu rosto bonito. Traços finos, pele rosada e bem cuidada. Olhos azuis intensos. Passou por ele, passos cadenciados e firmes, numa sinfonia de graça e charme. A calça jeans ajustada ao corpo mostrava uma silhueta perfeita de pernas e quadril. No seu rastro invisível, podia sentir as notas florais do perfume destoando do cheiro nauseabundo de alcatrão e nicotina que impregnavam o ambiente.

— Desculpe-me a ousadia, está esperando alguém?

Ela olhou como se já esperasse ser abordada. Lançou-lhe um sorriso branco e encantador, mostrando dentes perfeitos.

— Não. Resolvi admirar a noite.

Ele sentiu uma pontada de satisfação.

— Uma bonita frase. Posso dizer que sou um íntimo admirador dessa dama. Posso fazer-lhe companhia?

— Impossível!

Aquela negativa abrupta deixou-o atônito. Seu rosto enrugou, parecia ter envelhecido cinquenta anos em um segundo.

— Uma lenda grega conta que Nyx, a deusa da noite e dos segredos, amaldiçoa quem compartilha a noite escolhida para admirar...

— A domadora de homens e deuses? — ele sorriu.

— Entende de mitologia?

— Não. Entendo de segredos e de belas mulheres.

Olharam-se por alguns longos instantes. Cada um tentando articular uma frase de efeito. Estudando-se como se fossem adversários em um jogo de pôquer. Um blefe errado e todas as fichas estariam perdidas.

— Laila Katina. - disse por fim.

— Roberto Drummond.

— O criador de Hilda Furacão?

— Apenas uma feliz coincidência!

— E o que o traz aqui essa noite?

— Talvez medo de ficar em casa sozinho, fazendo companhia à minha garrafa de vinho e meu computador...

— Acho que compartilhamos do mesmo dilema.

— Vinho e computador?

— Não. Cigarros e sofá...

— Não gosto de cigarros... Mas, sofá é mal necessário. E o que mais faz quando não está fumando no sofá?

— Sou jornalista. Do caderno de economia...

— A senhora dinheiro! Muito bem. Então, fica fumando sentada no sofá e escrevendo sobre economia? É uma odisséia de altos e baixos...

— Engraçado, não havia percebido essa sutileza... E você, além de se embriagar com o vinho na companhia de seu computador e de fazer piadas com os outros, o que mais faz?

— Nada.

— Como nada?!

— Não gosta de segredos? — respondeu com outra pergunta.

— Gosto, mas não de estranhos.

— Os melhores segredos são de estranhos. Segredos de conhecidos passam a ser nossos... E já carregamos segredos demais, não acha?

— Então você carrega muitos segredos?

— Nem muito, nem pouco. O suficiente para quase perder uma vida...

— E um segredo vale uma vida?

— Depende do segredo e da vida... No meu caso, vale.

— É casado?

— Já fui... E você?

— Não tenho idade para isso. E nem saco!

Uma bela resposta! Se tivesse pensado assim quando era da sua idade, não teria cometido tal insanidade... — disse sorrindo.

— Foi tão ruim assim? — ela deu uma gostosa gargalhada.

— Isso já é outro segredo, mas dá para perceber a delicadeza da situação nas entrelinhas...

— Você ainda não falou do seu segredo maior, aquele que vale uma vida.

— São duas vidas...

— Duas?

— A minha e a sua!

Laila arregalou os olhos. Nunca fora de dar atenção a estranhos. Preferia ficar em seu apartamento ouvindo suas músicas, cuidando de sua pauta, de suas matérias. Às vezes alimentava seu blogue na internet, falando de futilidades, dando dicas de como conquistar o homem dos sonhos - quando ela mesma não sabia como fazer. Às vezes escrevia alguma crônica criticando a sociedade, a falta de cultura, o descaso de quem governa. Às vezes inventava um amor para chamar de seu.

Recatada, seu último namorado fora no tempo da faculdade, e isso já fazia mais de um ano. Frequentava algumas festas. Sempre cortejada, assediada e invejada por sua beleza, mas preferia a solidão. Ninguém era bom o suficiente. Resolvera trancar-se em seu mundo e observá-lo sob sua ótica racional. E logo naquele dia que resolvera buscar sentido para sua existência, dar vazão aos sentimentos reprimidos, aparece um desconhecido falando em tom ameaçador. Suas pernas estremeceram. Pensou em gritar, fazer um escândalo, mas sua voz emudecera como se fosse roubada, arrancada à força de sua garganta. Num átimo tentou levantar-se, mas não conseguiu.

Roberto por sua vez sempre fora um homem da vida. Boêmio por natureza, amante das artes e das mulheres. Não abria mão de um bom vinho, nem do teclado de seu computador, onde tecia estórias, costurava retalhos de imaginação, criando romances e contos que embalavam suas noites de insônia e geravam seu sustento. Era um artesão da palavra. Gostava dos flertes e vangloriava-se do seu poder de persuasão. Era fluente em todos os assuntos: de moda à economia; de religião à bruxaria; de política à literatura. Recitava poemas, sussurrava músicas, mandava flores. Enfim, vivia sua vida da maneira como gostava, sem muitas preocupações. Porém, aquele dia era diferente, aquela mulher linda prostrada em sua frente mexia com todos os seus sentidos, despertava sentimentos incompreensíveis. Relutara por meses em se aproximar dela até que decidira finalizar o último capítulo do romance de sua vida.

— Você é louco?! — Laila tentou levantar-se.

— Por favor, espere — disse segurando seu braço.

— Olha, não o conheço e tão pouco dei liberdade para fazer esse tipo de brincadeira. Por favor, saia da minha mesa, ou terei que chamar o segurança...

— Não queria saber o meu segredo? Meu segredo é você...

— Como posso ser seu segredo?

— Um segredo que separou nossas vidas...

— Quem diabos é você?

Uma lua majestosa abrira-se de repente no céu da Savassi derretendo-se em halos dourados. Roberto não suportaria mais aguardar por aquele ponto final. A sagacidade esvaiu-se, e uma necessidade urgente de colocar para fora o segredo de sua vida, obrigou-o a falar de uma vez, sem rodeios, como toda a verdade deve ser dita; como todos os segredos devem ser revelados.

— Sou seu pai.

4 comentários:

  1. Vc tem talento garoto! Gosto desse tipo de conto que nos engana, mto bom, mto bom!!!!!!
    Tens algum livro publicado? como faço pra adquirir?
    Abraços
    Marcelo

    ResponderExcluir
  2. Olá, Marcelo!
    Valeu pelo elogio!
    Cara, ainda não tenho nenhum publicado, mas meu primeiro romance já está em vias de publicação... acho que até no final do ano ele sai.
    Continue visitando o blogue!
    Abração,

    ResponderExcluir
  3. Caramba, cara, o seu jeito para criar diálogos é interessantíssimo. Tua narração é cheia de armadilhas, floreios que não são simples firula. Por isso que ainda acredito na literatura policial desse país. Continue mandando bem, cara.
    Paz.

    ResponderExcluir
  4. Valeu, meu amigo Josué!
    Incentivos como os seus é que nos motiva a continuar escrevendo.
    Grande abraço!

    ResponderExcluir