22 de agosto de 2012

A Louca

                                                                                O Grito, Edvard Munch.



O visor digital do relógio marcava o indefectível horário: sete horas, quarenta e quatro minutos e doze segundos. Coloquei o pé esquerdo na frente e entrei. Minha jornada de trabalho começa as oito em ponto. O pessoal já estava sentado à mesa, esperando o café e pão com manteiga da Dona Benta. Três minutos e dezesseis segundos depois ela apareceu balançando seu corpanzil. Um sorriso bonito e um bom dia caprichado. Parecia minha avó. Comemos e bebemos. O Grilo, que trabalha como segurança, tinha o bigodão cheio de manteiga e todo dia alguém tinha que falar para ele limpar. Após o desjejum, cada um foi para o seu posto. Menos a Louca.
A Louca é uma mulher bonita, pena que é doida varrida, loira, olhos verdes grandes que pareciam duas azeitonas na conserva, silhueta esculpida, pernas grossas e lindos seios pontudos. Andava para baixo e para cima de roupa branca e com um estetoscópio pendurado no pescoço. Seu consultório fictício ficava na sala dos fundos, consistia em uma mesa velha, uma cadeira forrada de couro sintético preto com um enorme buraco mostrando a espuma amarela, alguns livros empoeirados e um telefone que tocava sem parar. Acho que ela era telefonista. Mesmo com meus três anos, nove meses, treze dias e duas horas de trabalho ininterrupto, não sei ao certo algumas funções.
No caminho do refeitório até meu local de trabalho, exatos 147 passos, encontrei o Gasparzinho, um moleque cheio de vida que era o office-boy. Trocamos algumas palavras e continuei o percurso. Mais vinte e três passos até a porta. Entrei com o pé esquerdo e liguei o rádio AM/FM. Sentei, abri a gaveta e retirei meu exemplar de O Processo, era a quinta vez que tentava concluir a leitura, mas não sei por qual motivo não conseguia. Desconfio que sejam as metáforas, ou porque não gosto do estilo do autor, ou quem sabe, por eu ser escritor nas horas livres, seja um crítico contumaz. Na verdade, escrevo sem parar. Sou compulsivo e prolífico. Meus escritos, se encadernados, dariam, certamente, quarenta e sete Barsas! Já escrevi sobre todo mundo aqui do trabalho. Mas tenho receio de mostrar meu talento, sei que as pessoas não entenderiam o meu filosofar. A maioria prefere as novelas triviais, livros de autoajuda e as firulas dos grandes escritores. Abomino essas coisas modernas e superficiais. Gosto da literatura clássica. Sou conservador, tradicional aos bons costumes. Quando era casado, minha mulher sempre reclamava do papai e mamãe. Nunca consegui mudar de posição. Até que tentei uma vez...
Aqui é o melhor emprego que um homem como eu poderia ter. Tem gente de todas as espécies: comunistas, religiosos, artistas plásticos, atores, professores de línguas, advogados, juízes, médicos, enfermeiros... até um padre. E tem também as áreas que não sabemos ao certo do que se tratam. Ficam no último andar do prédio. O boato é que os tais setores são do serviço de inteligência. Já vi alguns policiais subindo para lá, mas eles nunca voltavam. Nunca tive curiosidade em descobrir. Não gosto dessas paranoias de serviço secreto.
Gosto de observar o pessoal. Ver como trabalham, como agem. Por exemplo, o Grilo: baixinho, magrelo e narigudo. Nunca vi um segurança de prédio público tão esquelético. Também não usa arma, apesar da movimentação diária, aqui é tranquilo. E quando algum alterado resolve bagunçar, o Grilo e seus asseclas dão um jeito de acalmar os nervos. Outra figura interessante é o Vidigal, uma mistura de padre com pastor. Reza todos os dias e gosta de pregar a “palavra”. Acho que ele tem um parafuso a menos. Deve estar próximo da aposentadoria, apesar de não fazer nada o dia inteiro. Mas nenhum deles se compara à Louca. Ela adora dar ordens. Insiste que somos seus pacientes, gosta de receitar comprimidos, injeções. Às vezes dá uma de psicóloga. E fica horas devaneando. Claro que ninguém dá crédito. Aceito as suas “consultas” para ver o belo par de seios. Ela abusa no decote, uma artimanha para arrebatar os pacientes. Esse é o segredo dos homens: os belos e firmes seios da “doutora Alice” — é assim que ela gosta de ser chamada.
A rotina empurrou o dia com a mesmice de sempre. Eu me preparava para deixar o trabalho, quando a noite começava a sorrir, ouvi um estouro. E em seguida, gargalhadas e música no volume máximo. Corri para o salão. Estava vazio. Percebi que vinha fumaça da parte de cima, da ala do serviço secreto. Procurei pelo Grilo, e nada. Eu estava sozinho. Mas afinal de contas o que estava acontecendo ali? Subi as escadas e vi fogo. Enormes línguas vermelhas comendo tudo em sua volta. Peguei uma cadeira e a joguei contra a janela. Enfiei a cabeça no buraco para respirar, foi quando vi luzes vermelhas piscando na escuridão da rua íngreme. Na calçada, de frente ao prédio de quatro andares em estilo art nouveau com suas flores e labaredas desbotadas, alguns curiosos observavam a entrada e a saída da polícia e dos bombeiros. Balançavam a cabeça de um lado para outro, como aqueles figurantes dos filmes e novelas. Mas não era obra de Sófocles, muito menos, Nelson Rodrigues. Era realidade. E doía na carne. O prédio estava em chamas. Notei que alguém gesticulava muito, apontando em minha direção. Eu tentava gritar, mas as palavras pareciam presas à minha garganta...
Acordei. Não consegui abrir os olhos, pareciam grudados. Senti um forte cheiro de cloro. Passei a mão pelo braço e notei que havia alguma coisa enfiada na minha pele. Ouvi vozes que não conhecia. Com muito esforço, consegui abrir o olho direito. Estava em um hospital. Um vulto de preto estava sentado próximo à minha cama. Acho que ele sorriu. Tentei retribuir, mas meus músculos não respondiam ao comando do cérebro. Doía muito.
— Como você está? ­— perguntou o vulto de preto.                                            
— Todo dolorido e... com sede! — respondi.
— Você se lembra do que aconteceu?
— Lembro do fogo e da fumaça... e das gargalhadas.
— Mais nada? — insistiu o homem.
— Pergunta logo o que quer saber — disse com certa rispidez.
— Sou o detetive Lavieiro, todos estão mortos e o prédio foi destruído pelo incêndio... achamos você desacordado, foi o único que sobreviveu...
Meu coração acelerou. Eu era o único sobrevivente! O que acontecera naquele lugar?
— O senhor teve contato com a doutora Alice no dia do incêndio? — perguntou o detetive.
— Há quanto tempo estou aqui?
— Três dias.
— Três dias?! Quem cuidou do Leopoldo durante minha ausência?!
— Quem é Leopoldo?
— Meu gato persa... ele é muito sentimental... — a agonia esmagava meu peito. Pobre Leopoldo...
— O senhor deve estar enganado... por favor, responda à pergunta.
Enfiei a mão na testa, buscando as memórias daquele dia.
— Não me lembro de ter consultado com a Louca... Mas me lembro do Gasparzinho falando que ela lhe receitara uns comprimidos e o Grilo estava mais agitado que o normal... Depois não os vi mais... Ah! Tem outra coisa importante... o Vidigal não pregou a “palavra” naquele dia.
— O senhor pode me dizer quem é a louca?
Eu ri. O policial não sabia do nosso código.
— A doutora Alice — disse doutora fazendo um entre aspas com os dedos — era conhecida como a Louca. Gostava de dar uma de médica...
O detetive Lavieiro olhou para o outro homem como se já desconfiasse da loucura dela. Minhas palavras ratificaram as suspeitas.
— E tem mais, a gente só consultava com ela por causa dos lindos seios... era o nosso maior segredo! Foi ela quem colocou fogo no prédio? Aposto que sim!
— Encontramos um bilhete... uma carta de despedida:

Até hoje me mantive sã... queria mudar o mundo! Queria que todos fossem tratados com igualdade; que existisse apenas fome de amor; que as guerras fossem apenas briguinhas de sexo entre quatro paredes... Respiro a loucura. Vivo a insanidade. Ouço nos discursos inflamados dos políticos a demagogia ziguezaguear em espirais de loucura e insensatez...
 Quem é louco?
Quem é são?
Concordo com meus pacientes:
eu sou a LOUCA!
Hoje todos descansarão. Viajaremos para uma galáxia distante. Lá é tão lindo! Flores brancas e roxas, passarinhos cantando, vaquinhas pastando a relva verde... o barulho da cachoeira de águas cristalinas correndo para o rio. Lá é proibido matar, roubar, mentir. Lá todos são loucos e poetas. É para lá que vamos!
Com amor,
Alice Medeiros,
Chefe do Setor de Psiquiatria do Manicômio Estadual.

As lágrimas escorreram sem atrito desaguando em meus lábios. Coitada da Louca. Quem em sã consciência escreveria uma carta assim?