
Ela caminhava de tal forma que seus passos mal tocavam o chão encharcado. Seu estado de torpor a impedia de visualizar o brilho viscoso que escorria pelas folhas marrons queimadas pelo sol de outrora. Zunidos martelavam em seus ouvidos, abafando o som nervoso dos bueiros que engoliam a densa enxurrada alaranjada.
Parou. Ajeitou o capuz preto sobre a densa cabeleira loira — que naquele momento tinha cor de cabelo de molhado. Com um movimento automático apanhou o crucifixo de ouro que pendia sobre o peito e enfiou a haste sob a unha limpando a pequena nódoa. Voltou a caminhar. Um filme passava quadro a quadro, misturando-se às imagens apressadas da metrópole, como em uma película de cinema mudo. E agora tudo era negro, cinza e vermelho. Alcatrão. Fumaça. Sangue. Zunido...
A porta estava escancarada. Dois corpos jaziam. Dentes brancos esboçando sorrisos de felicidade em meio à miséria. Um misto de vergonha, medo e... prazer. O fedor nauseabundo da morte rodopiava entre as paredes do hotel fundindo-se ao cheiro de lavanda barata e naftalina. Ela ainda conseguia visualizar a cena anterior: um homem magro sobre a cama desfeita. O lençol meio caído, meio esticado, indicava que ali houvera ação. Seu bigode ralo fazia as vezes de um filtro extra para a fumaça do cigarro que serpenteava das narinas e boca. O corpo suado recendia a sexo. Ao prazer libidinoso da carne.
Ela estava nua ao seu lado e sorria. Seus dedos finos tocavam a pele manchada do homem, fazendo-o se contorcer, talvez pelas cócegas do atrito, talvez pelo acúmulo de energia sexual, ou quem sabe, por algum capricho da anatomia humana. Estremeceu ao se lembrar dos momentos de êxtase e apertou as pernas. Deleitava-se naquele antro. Era feliz. Mas sentia remorso. Olhou para o espelho e percebeu que seu reflexo estava cortado por uma linha mofada. Passos apressados cortaram o corredor e se estacionaram junto à porta. Um barulho seco. Flagrante.
Um homem alto e gordo arfava. Suas mãos tremiam em grandes solavancos. Os olhos injetados de sangue davam-lhe ares de fera. Pronta para atacar. O indicador em riste apontava. Sinalizava. Em um átimo, o mesmo indicador flexionava o gatilho do revólver. Um tiro. Trovões raivosos estouravam do lado de fora e entravam pelas frestas das janelas. Sem gritos. Sem polvorosa.
Vestiu a roupa e saiu apressada. Não teve coragem de fitar o homem gordo que agora abraçava o corpo ensanguentado. Muito menos pôde ouvir suas palavras:
“Há uma certa vergonha em sermos felizes perante certas misérias” ... nossa felicidade era apenas uma máscara. Uma sombra. A sombra de uma mentira.
Outro estampido ecoou pelo quarto. Mas ela já estava longe, de volta ao convento.
Sempre leio teus trabalhos, gosto muito, como os teus tem também os belos trabalhos que gostaria de indicar leia também
ResponderExcluirhttp://letras-dos-olhos.blogspot.com/
Abraços
Fera! mto bom o txt!!!
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