27 de novembro de 2010

Passagem Proibida


Um adeus mudo como uma imagem refletida no espelho. Assim despediu-se da vida. Lábios retesados e alguns dentes amarelos à mostra formavam uma careta de dor e culpa.

Era inverno. O frio cortante rompia a camada de napa da jaqueta esfarrapada trespassando a pele, a carne, fazendo os ossos doerem. Tomou um gole de café para espantar o sono de uma noite maldormida. Apanhou a mochila, beijou a filha que dormia na serenidade infantil, encolhida sobre o estrado de madeira forrado com papelão e coberta por um pedaço de pano raso. O ursinho de pelúcia, sem os olhinhos e o nariz, agarrado ao corpo, era a única coisa quente que sentira naquela época do ano. Olhou para cima, a fuligem que impregnava o teto cheio de gretas formava uma espécie de pintura rupestre. Talvez, naquele momento, quisera ter tido uma sorte melhor: uma casa confortável, uma cama e um sofá, uma TV em cores, uma geladeira com um pinguim em cima e comida dentro. Queria ter aprendido a escrever seu nome e poder ajudar a filha nas lições escolares. Uma lágrima viscosa desceu lentamente pela face encardida. Suspirou e saiu.

A ruela de terra batida absorvia os dejetos da comunidade. Vira-latas, ratos, baratas e urubus rodeavam o córrego a céu aberto em busca de comida, de sobrevivência. Um lençol branco encobrindo um corpo no canto da rua apresentava manchas vermelhas e pretas. Ele balançou a cabeça. Mesmo acostumado àquela cena cotidiana, era difícil entender tanta violência.

Falta de caráter ou de sorte? — pensou.

Andou por meia hora até o ponto de ônibus que o levava até à estação do metrô. Quarenta minutos depois saltou pela porta de trás, se embrenhando por debaixo da cidade. Parou em frente à catraca. Pensou em pular, economizaria o dinheiro do almoço. Deu dois passos para trás, comprou o bilhete duplo e foi embora. Sentiu-se como uma minhoca serpenteando por baixo da terra.

O trânsito estava parado. Buzinas, gritos, exaltação. Balbúrdia. Caos.

Uma placa gritava em letras garrafais:

PASSAGEM PROIBIDA!

— Não tenho grana pra comprar... seja lá o que for! — resmungou, enquanto seguia seu caminho.

Ouviu gritos. Pessoas correndo. Alguns pulavam, outros se jogavam ao chão. As sirenes das viaturas policiais urravam e os estampidos de tiros zuniam. Tentou correr. Tentou pular...

Na altura do peito, sobre o coração, a carne queimava. Uma nuvem cinza caiu sobre as retinas.
Fecharam-se as cortinas da vida. Abriram-se as cortinas da morte. Sua última cena, seu último ato na tragédia da existência.

No jornal do dia seguinte, uma notícia de rodapé nas páginas policiais:

Bala perdida mata trabalhador da construção civil.

E ele só queria uma casa confortável...

25 de maio de 2010

Conte-me seus segredos

Ela observava a fumaça do cigarro subir em pequenas espirais azuis até se estraçalhar no teto encardido do apartamento, sua única distração naquele entardecer de domingo. A TV desligada. Não gostava de futebol, tão pouco dos programas dominicais. O ócio e o tédio faziam-lhe companhia. Sua imagem refletida no espelho, os contornos suaves de seu rosto encantavam e enfeitiçavam. E seduzida por seus reflexos, tal qual Narciso, resolveu mostrar-se. Precisava da noite, necessitava de ar, de gente.

Uma chuva fina caía sobre a Savassi, encobrindo de negrume o céu belorizontino, escondendo as estrelas e apressando a noite. No bar, homens e mulheres se espremiam em busca de um lugar, de um sorriso, de calor humano.

Ele estava sentado na mesa de sempre, junto à varanda, precisava de oxigênio natural e não reciclado. Os olhos perdidos na imensidão do horizonte demonstravam certa tristeza. Ansiava vê-la. Admirar a beleza que o encantara por vezes seguidas. Queria sentir o sangue novamente em suas veias. Já sabia seu nome. Já sabia quem era.

Ela vestiu-se com esmero e sutileza realçando ainda mais sua beleza juvenil. Longos cabelos loiros emolduravam seu rosto bonito. Traços finos, pele rosada e bem cuidada. Olhos azuis intensos. Passou por ele, passos cadenciados e firmes, numa sinfonia de graça e charme. A calça jeans ajustada ao corpo mostrava uma silhueta perfeita de pernas e quadril. No seu rastro invisível, podia sentir as notas florais do perfume destoando do cheiro nauseabundo de alcatrão e nicotina que impregnavam o ambiente.

— Desculpe-me a ousadia, está esperando alguém?

Ela olhou como se já esperasse ser abordada. Lançou-lhe um sorriso branco e encantador, mostrando dentes perfeitos.

— Não. Resolvi admirar a noite.

Ele sentiu uma pontada de satisfação.

— Uma bonita frase. Posso dizer que sou um íntimo admirador dessa dama. Posso fazer-lhe companhia?

— Impossível!

Aquela negativa abrupta deixou-o atônito. Seu rosto enrugou, parecia ter envelhecido cinquenta anos em um segundo.

— Uma lenda grega conta que Nyx, a deusa da noite e dos segredos, amaldiçoa quem compartilha a noite escolhida para admirar...

— A domadora de homens e deuses? — ele sorriu.

— Entende de mitologia?

— Não. Entendo de segredos e de belas mulheres.

Olharam-se por alguns longos instantes. Cada um tentando articular uma frase de efeito. Estudando-se como se fossem adversários em um jogo de pôquer. Um blefe errado e todas as fichas estariam perdidas.

— Laila Katina. - disse por fim.

— Roberto Drummond.

— O criador de Hilda Furacão?

— Apenas uma feliz coincidência!

— E o que o traz aqui essa noite?

— Talvez medo de ficar em casa sozinho, fazendo companhia à minha garrafa de vinho e meu computador...

— Acho que compartilhamos do mesmo dilema.

— Vinho e computador?

— Não. Cigarros e sofá...

— Não gosto de cigarros... Mas, sofá é mal necessário. E o que mais faz quando não está fumando no sofá?

— Sou jornalista. Do caderno de economia...

— A senhora dinheiro! Muito bem. Então, fica fumando sentada no sofá e escrevendo sobre economia? É uma odisséia de altos e baixos...

— Engraçado, não havia percebido essa sutileza... E você, além de se embriagar com o vinho na companhia de seu computador e de fazer piadas com os outros, o que mais faz?

— Nada.

— Como nada?!

— Não gosta de segredos? — respondeu com outra pergunta.

— Gosto, mas não de estranhos.

— Os melhores segredos são de estranhos. Segredos de conhecidos passam a ser nossos... E já carregamos segredos demais, não acha?

— Então você carrega muitos segredos?

— Nem muito, nem pouco. O suficiente para quase perder uma vida...

— E um segredo vale uma vida?

— Depende do segredo e da vida... No meu caso, vale.

— É casado?

— Já fui... E você?

— Não tenho idade para isso. E nem saco!

Uma bela resposta! Se tivesse pensado assim quando era da sua idade, não teria cometido tal insanidade... — disse sorrindo.

— Foi tão ruim assim? — ela deu uma gostosa gargalhada.

— Isso já é outro segredo, mas dá para perceber a delicadeza da situação nas entrelinhas...

— Você ainda não falou do seu segredo maior, aquele que vale uma vida.

— São duas vidas...

— Duas?

— A minha e a sua!

Laila arregalou os olhos. Nunca fora de dar atenção a estranhos. Preferia ficar em seu apartamento ouvindo suas músicas, cuidando de sua pauta, de suas matérias. Às vezes alimentava seu blogue na internet, falando de futilidades, dando dicas de como conquistar o homem dos sonhos - quando ela mesma não sabia como fazer. Às vezes escrevia alguma crônica criticando a sociedade, a falta de cultura, o descaso de quem governa. Às vezes inventava um amor para chamar de seu.

Recatada, seu último namorado fora no tempo da faculdade, e isso já fazia mais de um ano. Frequentava algumas festas. Sempre cortejada, assediada e invejada por sua beleza, mas preferia a solidão. Ninguém era bom o suficiente. Resolvera trancar-se em seu mundo e observá-lo sob sua ótica racional. E logo naquele dia que resolvera buscar sentido para sua existência, dar vazão aos sentimentos reprimidos, aparece um desconhecido falando em tom ameaçador. Suas pernas estremeceram. Pensou em gritar, fazer um escândalo, mas sua voz emudecera como se fosse roubada, arrancada à força de sua garganta. Num átimo tentou levantar-se, mas não conseguiu.

Roberto por sua vez sempre fora um homem da vida. Boêmio por natureza, amante das artes e das mulheres. Não abria mão de um bom vinho, nem do teclado de seu computador, onde tecia estórias, costurava retalhos de imaginação, criando romances e contos que embalavam suas noites de insônia e geravam seu sustento. Era um artesão da palavra. Gostava dos flertes e vangloriava-se do seu poder de persuasão. Era fluente em todos os assuntos: de moda à economia; de religião à bruxaria; de política à literatura. Recitava poemas, sussurrava músicas, mandava flores. Enfim, vivia sua vida da maneira como gostava, sem muitas preocupações. Porém, aquele dia era diferente, aquela mulher linda prostrada em sua frente mexia com todos os seus sentidos, despertava sentimentos incompreensíveis. Relutara por meses em se aproximar dela até que decidira finalizar o último capítulo do romance de sua vida.

— Você é louco?! — Laila tentou levantar-se.

— Por favor, espere — disse segurando seu braço.

— Olha, não o conheço e tão pouco dei liberdade para fazer esse tipo de brincadeira. Por favor, saia da minha mesa, ou terei que chamar o segurança...

— Não queria saber o meu segredo? Meu segredo é você...

— Como posso ser seu segredo?

— Um segredo que separou nossas vidas...

— Quem diabos é você?

Uma lua majestosa abrira-se de repente no céu da Savassi derretendo-se em halos dourados. Roberto não suportaria mais aguardar por aquele ponto final. A sagacidade esvaiu-se, e uma necessidade urgente de colocar para fora o segredo de sua vida, obrigou-o a falar de uma vez, sem rodeios, como toda a verdade deve ser dita; como todos os segredos devem ser revelados.

— Sou seu pai.

11 de abril de 2010

Quarto de hotel


Ela caminhava de tal forma que seus passos mal tocavam o chão encharcado. Seu estado de torpor a impedia de visualizar o brilho viscoso que escorria pelas folhas marrons queimadas pelo sol de outrora. Zunidos martelavam em seus ouvidos, abafando o som nervoso dos bueiros que engoliam a densa enxurrada alaranjada.

Parou. Ajeitou o capuz preto sobre a densa cabeleira loira — que naquele momento tinha cor de cabelo de molhado. Com um movimento automático apanhou o crucifixo de ouro que pendia sobre o peito e enfiou a haste sob a unha limpando a pequena nódoa. Voltou a caminhar. Um filme passava quadro a quadro, misturando-se às imagens apressadas da metrópole, como em uma película de cinema mudo. E agora tudo era negro, cinza e vermelho. Alcatrão. Fumaça. Sangue. Zunido...

A porta estava escancarada. Dois corpos jaziam. Dentes brancos esboçando sorrisos de felicidade em meio à miséria. Um misto de vergonha, medo e... prazer. O fedor nauseabundo da morte rodopiava entre as paredes do hotel fundindo-se ao cheiro de lavanda barata e naftalina. Ela ainda conseguia visualizar a cena anterior: um homem magro sobre a cama desfeita. O lençol meio caído, meio esticado, indicava que ali houvera ação. Seu bigode ralo fazia as vezes de um filtro extra para a fumaça do cigarro que serpenteava das narinas e boca. O corpo suado recendia a sexo. Ao prazer libidinoso da carne.

Ela estava nua ao seu lado e sorria. Seus dedos finos tocavam a pele manchada do homem, fazendo-o se contorcer, talvez pelas cócegas do atrito, talvez pelo acúmulo de energia sexual, ou quem sabe, por algum capricho da anatomia humana. Estremeceu ao se lembrar dos momentos de êxtase e apertou as pernas. Deleitava-se naquele antro. Era feliz. Mas sentia remorso. Olhou para o espelho e percebeu que seu reflexo estava cortado por uma linha mofada. Passos apressados cortaram o corredor e se estacionaram junto à porta. Um barulho seco. Flagrante.

Um homem alto e gordo arfava. Suas mãos tremiam em grandes solavancos. Os olhos injetados de sangue davam-lhe ares de fera. Pronta para atacar. O indicador em riste apontava. Sinalizava. Em um átimo, o mesmo indicador flexionava o gatilho do revólver. Um tiro. Trovões raivosos estouravam do lado de fora e entravam pelas frestas das janelas. Sem gritos. Sem polvorosa.

Vestiu a roupa e saiu apressada. Não teve coragem de fitar o homem gordo que agora abraçava o corpo ensanguentado. Muito menos pôde ouvir suas palavras:

“Há uma certa vergonha em sermos felizes perante certas misérias” ... nossa felicidade era apenas uma máscara. Uma sombra. A sombra de uma mentira.

Outro estampido ecoou pelo quarto. Mas ela já estava longe, de volta ao convento.

27 de março de 2010

Homem não chora


Acordei com uma sensação esquisita. A boca tinha gosto acre, não sei de que. Não era ressaca, com certeza. O coração batia acelerado bombeando mais sangue que meu corpo magrelo comportava. Puxei a cortina e o sol entrou como um vendedor tresloucado, gritando, cuspindo na minha cara. Uma cegueira momentânea. Voltei com a cortina pro lugar. A penumbra nunca fora tão benquista.

As imagens do passado vieram como num filme de Chaplin, em preto e branco, mudas, apressadas e aos poucos se tornaram lentas, quadro a quadro. Lá estava ele. Sorria. Dentes amarelados pela nicotina do vício que estampava um sorriso branco, imaculado. Tenro. Pude ouvir o som da voz suave e forte que emitia palavras inteligíveis. A mão tremia um pouco, os cabelos ralos e brancos desnudavam a testa protuberante. Aproximei-me. Podia sentir o calor do seu corpo e o cheiro de cigarro de palha. Pigarreou. E sorriu novamente. Levantou-se e veio em minha direção. O barulho descompassado que ecoava em meu peito arremeteu-me de volta ao quarto escuro.

Busquei em alguma parte da memória quando eu fora alguém de verdade. Quando não vivi nas sombras das muitas mentiras que contava. Incomodava. Às vezes. Sem pestanejar enfiei a mão por baixo do colchão e peguei um cigarro no maço, a chama do isqueiro balançava com os solavancos que meu corpo emitia, por fim, consegui acender. A fumaça impregnou o minúsculo cômodo. Ouvi um esboço de tosse. Talvez algum pulmão comprometido. Fechei os olhos. E o filme voltou no lugar que parou: ele veio em minha direção. Sabia o que ia dizer. Não era homem de meias palavras, nem de conversa fiada. Eu estava parado. Inerte como um boneco de neve daqueles que a gente vê nos filmes americanos. Um boneco de gelo, magrelo, sem movimentos e sentimentos. Ele estava mais perto. Podia ver os traços do seu rosto, os sulcos vincados de sua pele encardida. Ele me encarava. Seus olhos penetravam minha alma. Sorriu de novo. Aquele sorriso sincero. Todos sabemos quando um sorriso é sincero ou não. E aquele era. Na sua mais pura síntese. Pude ouvir o último som que saiu de sua boca:

— Homem não chora. Faça seu trabalho, pistoleiro.

Vi apenas o cabelo ralo se levantar e tingir-se de vermelho. Uma lágrima viscosa teimou em sair pela minha face. E ouvi a voz mais forte sussurrando em meu ouvido:

Homem não chora... Homem não chora...





15 de fevereiro de 2010

Não julgue o livro pela capa

Jogou a capa de chuva sobre o corpo. O imenso capuz preto encobria seu rosto bonito, escondendo os olhos verdes tristes. Ela poderia ter escolhido uma mais bonitinha, mais feminina. Mas não. Não queria compactuar da mesma moda das metidinhas do condomínio. Seu estilo era aquele: meio despachado, meio intelectual. Metade mulher, metade menina. Metade borboleta, metade fera. Simplesmente ela.

Divertia-se com o barulho dos passos pesados espalhando a água empoçada. Meia hora depois o sol espalhava seu calor gostoso sobre o céu de dezembro.
A aula de inglês estava maçante. Saiu sem pedir licença. Ansiava chegar ao seu lugar favorito: a sombra do grande ipê amarelo. A velha árvore era sua amiga, sua confidente. Tatuara em seu tronco suas iniciais e as daquele babaca metido a artista. Arrepiou-se ao lembrar que emoldurara as letras com um coração flechado. Quanta falta de criatividade! Agora, sob sua copa frondosa ela observa o buraco escuro no tronco da velha amiga. Coisas que nos arrependemos com o tempo.

Eu não aguentava mais aquele desfile de egos. Egocêntricos ignorantes. Afrouxei a gravata que me estrangulava. Estava de saco cheio de ar reciclado.
Sob o ipê amarelo, vi a silhueta de uma mulher com um livro na frente do rosto. Segurava-o com uma mão e a outra mexia nos cabelos em curtos intervalos. Ela estava impaciente, ansiosa ou descontente. Não sou adivinho, muito menos tenho bola de cristal. Li uma matéria numa dessas revistas femininas que as mulheres sempre mexem nos cabelos quando estão nervosas, impacientes ou querem muito alguma coisa. Mistérios do sexo feminino.

Observava-a de longe. Ria das intermináveis caretas, biquinhos e sorrisos fortuitos. Ela se divertia na leitura daquele livro. Que livro seria? Que história interessante era aquela que a deixava tão inquieta? Vampiros? Não. Ela não tinha cara de quem gostava de vampiros. Filosofia? Provavelmente também não. As ideias filosóficas são chatas demais para arrancar risinhos tão sinceros e lindos. Queria saber que diabos de livro era aquele. E o mais importante: que mulher era aquela.

Pulei de um banco para outro rodeando o ipê amarelo. A grama verde, os cisnes brancos e pretos nadando num balé desajeitado sobre as águas do lago artificial, pareciam um daqueles quadrinhos vendidos em dúzias e que enfeitam a maioria das casas. Lembrei-me da minha. Havia um daqueles decorando a parede da sala.

Tomei coragem. Coloquei o jornal debaixo do braço. Assustei-me com o barulho dos meus pés amassando a grama verdinha. Logo naquele maldito dia havia me esquecido dos óculos. Sou míope. Precisei chegar mais perto, tinha que ver o rosto que aguçou minha curiosidade e meus instintos masculinos. Precisava saber o título do livro que ela devorava com a mesma volúpia e desejo que se devora... deixa pra lá.

Retirei os sapatos, não queria atrapalhar sua concentração, muito menos chamar sua atenção. Caminhei pisando em ovos, sei que é clichê, mas é a melhor forma para descrever o esmero com o qual eu pisava. Estava perto, uns cinco ou seis passos. Num ato mecânico, como se estivesse espantando uma mosca enxerida, ela levantou o livro, cobrindo completamente o rosto...

Um giro de cento e oitenta graus, os mesmos passos esmerados fizeram o caminho de volta. Não olhei para trás.

Ela continuou sua leitura, deitada, sonhando e rindo. Tranquila sob a sombra fresca. Eu voltei para a Editora. Servia-me de consolo não saber o enredo daquela história. Não perdi meu tempo lendo o original de um escritor desconhecido. Julguei o livro pela capa, ou melhor, pela falta dela.

30 de janeiro de 2010

Uma Simples Maçã

Calçou a botina, olhou para o céu tentando adivinhar o que vinha pela frente. As nuvens claras salpicadas pelo firmamento formavam um zoológico de bichinhos, definitivamente não era um bom oráculo. Tomou um gole de café morno que descansava sobre o que outrora fora um braseiro. Jogou a enxada sobre o ombro, ajeitou o chapéu de feltro sobre a cabeça e saiu.

No casebre, um trio de bocas abertas, sedentas e famintas mantinha-se mudas. Esperando algo para sonhar. Sonhar?! Aquelas criaturas não conheciam sonhos. Viviam no limbo do pesadelo diário. Pesadelo de fome, de sede e dor. Dor? Era comum. Desconheciam um colchão macio, um lençol de algodão, mesmo que fosse fajuto. Era assim que eu pensava...

De longe ouvi uma musiquinha. A voz era fraca e a melodia agradável. Um afago para meus ouvidos acostumados à balbúrdia da cidade grande. Caminhei seguindo a trilha de notas musicais. O homem trabalhava a terra. A enxada subia e descia em atos sincronizados, como um maestro regendo a orquestra. Ele cantava e a voz tremia com os solavancos de seu instrumento de trabalho chocando-se contra o chão vermelho e duro. Olhou para mim. Parou por um instante, enxugou o rosto e tocou a aba do chapéu, cumprimentando-me. Acenei retribuindo a gentileza. Sem que percebesse, deixei uma maçã sobre seu embornal. Continuei meu caminho observando a poeira que subia.

No quintal, duas crianças brincavam. Risinhos espontâneos. Sequer se importavam com o sol que castigava a pele e feria os olhos. No varal, uma mulher magra estendia a roupa encardida e cantava. Como poderiam cantar e sorrir no meio daquela pobreza? Pensei. Sentei sob um naco de sombra. Tomei um gole de água ainda fria que trazia no cantil térmico. Coisas modernas, da China. Observava a rotina daquelas pessoas. Pouco tempo depois, uma fumacinha subia em espirais, atravessando o sapé da minúscula casa de barro e pau-a-pique. Um cheiro diferente rodopiou pelo ar. Cheiro de quê?

Uma hora depois percebi que as crianças ficaram mais agitadas. Seria fome? Pulavam e corriam. Ouvi a mulher gritar que o almoço estava pronto. Espantei-me com a resposta:

Vamos esperar papai.

Não demorou muito até ele chegar. Os risinhos se intensificaram. As crianças correram ao encontro do pai. Uma das mãos estava escondida atrás das costas. A curiosidade infantil deu voltas ao redor do homem, tentando descobrir o que ele guardava. Lentamente abriu a mão. Uma maçã. Vermelha. Vívida. Doce e gostosa. As vozes tenras perguntaram em uníssono:

O que é isso?

Ele sorriu.

Uma coisa pra se admirar...
Admirar? Era para comer. Uma maçã. Uma simples maçã...

11 de janeiro de 2010

Uma Vida...



Sua fortuna passava facilmente da casa dos milhões. E mesmo assim vestia-se com simplicidade. Calça jeans desbotada, camisa de gola abotoada até a metade e uma bota de couro marrom com solado de borracha grossa que só trocava quando a sola do pé encontrava o chão.
Gabava-se que tudo era fruto do suor do seu rosto e da força de seus braços. Acordava religiosamente às quatro da manhã e antes do galo cantar já estava a caminho do trabalho. Chegava ao escritório e conferia o fechamento do dia anterior, ia ao pátio e inspecionava pessoalmente as máquinas. A voz grave e pausada sempre disposta a dar um bom-dia sincero e com um sorriso afável recebia os funcionários que chegavam.
Avesso às colunas sociais. Dispensava com gentileza todos os convites para confraternizações, preferia tomar uma cerveja num boteco copo sujo e comer um tira-gosto gorduroso no bar do Pescoço. Nada de champanhe, nem vinho. Dizia que eram bebidas pra mulher.
Família criada e os filhos, o oposto do pai. Ostentavam o luxo que o dinheiro compra. Carros importados, roupas de grifes, badalações em grau máximo. Frequentavam as melhores escolas, as melhores festas, se contentavam apenas com o melhor. E o velho continuava em sua rotina. Seu tesão era o extrato bancário: aquela enxurrada de zeros à direita. Colírio para os olhos cansados e formosa dama para espantar as tristezas da alma. Tinha um sonho: uma Mercedes. Fácil de ser resolvido. Era só escolher o modelo... mas se contentava com o Tempra 95. Seria um sacrilégio gastar tanto dinheiro com um carro que fazia a mesma coisa que o antigo companheiro. Protelava o sonho. Um dia, quem sabe!
O tempo que faz brotar e murchar exerceu seu poder. E corpo murchou. Cansou-se das horas de trabalho sem descanso, dos zeros que preenchiam as casas dos milhões. Cansou-se de tudo. E o castigo só é dado para quem não o merece. Realmente ele não merecia aquela coisa.
A família reunida na sala esperando por notícias. Ninguém sabia o que se passava, aguardavam ansiosos a chegada do médico. E ele veio com a sentença: Alguns dias, no máximo um ou dois meses. O fim anunciado de uma jornada sem nódoas. Lágrimas de dor inundaram os olhos. Sentimentos que se desconhece até a intermitência da vida.
O corpo pálido descansava sobre o lençol limpo. Os filhos cochichavam, tinham medo de acordá-lo. O mais velho que ostentava longas madeixas escuras sentia falta das reclamações. Lembrava-se dos pedidos diários para que cortasse os cabelos e se portasse como homem de verdade, e logo depois, recebia um beijo de pai na face de menino. A enfermeira trouxe a caixinha de remédios. Uma porção. Logo ele que nunca foi de ir ao médico, de tomar remédio. Suas dores de cabeça e resfriados eram curadas com cachaça e mel. Nunca falhara.
Abriu os olhos e a luz causou-lhe certo desconforto. Lentamente esfregou os olhos, uma gotinha salgada desceu sem esforços. Raridade. O homem bonito a sua frente segurava um molho de cabelos. Um beijo na face enrugada. Beijo de filho. A cadeira de rodas atravessou o saguão triste do hospital, levando-o de volta para o dia. Na portaria, uma Mercedes prateada brilhava refletindo os raios do sol de uma manhã bonita como a mulher amada. Um sorriso repuxado aflorou.
O vento entrava pela janela acariciando o rosto tranquilo. As ruas barulhentas da cidade estavam em câmera lenta. Abrindo passagem. Outra lágrima desceu e secou em seguida. Fechou os olhos e partiu.