28 de setembro de 2012

Preto


O vento adentrou pela janela aberta criando um pequeno caos. Folhas de pinturas vazias voaram, peças de argilas se estraçalharam, o cavalete tombou sobre o pote de tinta vermelha, pintando o chão outrora cinzento.

Os pelos dos braços se eriçaram. Continuei ali, imóvel, paralisado diante tanta beleza. Ela sorria. Um sorriso lindo. E naquele momento o universo inteiro girava ao seu redor, como a Terra ao redor do Sol. Embate entre beleza e solidão naquele sorriso retratado.

E agora, tento arranhar as nuvens. Grito. Levanto minhas mãos em oração. Choro. E vejo que todas as imagens que criei não passam um borrão preto. Uma mancha tatuada em qualquer lugar. Ainda choro. Tento, em vão, agarrar as cordas que me manipulam. Eu tento...

Do lado de fora algumas crianças brincam. Dão risadas. Estão rindo do quê? O cenho fechado. O corpo fechado. A alma fechada.

Tudo é um borrão.

De repente o mundo começa a girar. Tudo gira. Tudo conspira. Está girando rápido, mais rápido, uma espiral. Um redemoinho. Caio. Grito. Tento agarrar-me às cordas. 

O sol se põe. 

Chega a noite. 

Não há estrelas, não há lua. Não há nada. Só escuridão.

As mãos trêmulas tentam embalar os cacos, os restos... não há salvação. Não tem como consertar. Ela se foi.

Todo o amor se tornou mal. O mundo virou escuridão. Ah amor... ah amor mau que tatua de preto tudo que vejo, tudo que sou e tudo que serei. Amor mau. 

Mal de amor.

Eu sei que você não voltará. Sei que algum dia terá uma linda vida, que será uma estrela. Uma estrela no céu de alguém. Mas não no meu. Não no meu.

Tudo que vejo é um borrão. Uma pintura cinza, preta, fria. Tudo que sou não passa de ilusão.

Eu sou ilusão. Eu sou uma ilusão...


Ps: uma tentativa de releitura de Black, Pearl Jam.

22 de agosto de 2012

A Louca

                                                                                O Grito, Edvard Munch.



O visor digital do relógio marcava o indefectível horário: sete horas, quarenta e quatro minutos e doze segundos. Coloquei o pé esquerdo na frente e entrei. Minha jornada de trabalho começa as oito em ponto. O pessoal já estava sentado à mesa, esperando o café e pão com manteiga da Dona Benta. Três minutos e dezesseis segundos depois ela apareceu balançando seu corpanzil. Um sorriso bonito e um bom dia caprichado. Parecia minha avó. Comemos e bebemos. O Grilo, que trabalha como segurança, tinha o bigodão cheio de manteiga e todo dia alguém tinha que falar para ele limpar. Após o desjejum, cada um foi para o seu posto. Menos a Louca.
A Louca é uma mulher bonita, pena que é doida varrida, loira, olhos verdes grandes que pareciam duas azeitonas na conserva, silhueta esculpida, pernas grossas e lindos seios pontudos. Andava para baixo e para cima de roupa branca e com um estetoscópio pendurado no pescoço. Seu consultório fictício ficava na sala dos fundos, consistia em uma mesa velha, uma cadeira forrada de couro sintético preto com um enorme buraco mostrando a espuma amarela, alguns livros empoeirados e um telefone que tocava sem parar. Acho que ela era telefonista. Mesmo com meus três anos, nove meses, treze dias e duas horas de trabalho ininterrupto, não sei ao certo algumas funções.
No caminho do refeitório até meu local de trabalho, exatos 147 passos, encontrei o Gasparzinho, um moleque cheio de vida que era o office-boy. Trocamos algumas palavras e continuei o percurso. Mais vinte e três passos até a porta. Entrei com o pé esquerdo e liguei o rádio AM/FM. Sentei, abri a gaveta e retirei meu exemplar de O Processo, era a quinta vez que tentava concluir a leitura, mas não sei por qual motivo não conseguia. Desconfio que sejam as metáforas, ou porque não gosto do estilo do autor, ou quem sabe, por eu ser escritor nas horas livres, seja um crítico contumaz. Na verdade, escrevo sem parar. Sou compulsivo e prolífico. Meus escritos, se encadernados, dariam, certamente, quarenta e sete Barsas! Já escrevi sobre todo mundo aqui do trabalho. Mas tenho receio de mostrar meu talento, sei que as pessoas não entenderiam o meu filosofar. A maioria prefere as novelas triviais, livros de autoajuda e as firulas dos grandes escritores. Abomino essas coisas modernas e superficiais. Gosto da literatura clássica. Sou conservador, tradicional aos bons costumes. Quando era casado, minha mulher sempre reclamava do papai e mamãe. Nunca consegui mudar de posição. Até que tentei uma vez...
Aqui é o melhor emprego que um homem como eu poderia ter. Tem gente de todas as espécies: comunistas, religiosos, artistas plásticos, atores, professores de línguas, advogados, juízes, médicos, enfermeiros... até um padre. E tem também as áreas que não sabemos ao certo do que se tratam. Ficam no último andar do prédio. O boato é que os tais setores são do serviço de inteligência. Já vi alguns policiais subindo para lá, mas eles nunca voltavam. Nunca tive curiosidade em descobrir. Não gosto dessas paranoias de serviço secreto.
Gosto de observar o pessoal. Ver como trabalham, como agem. Por exemplo, o Grilo: baixinho, magrelo e narigudo. Nunca vi um segurança de prédio público tão esquelético. Também não usa arma, apesar da movimentação diária, aqui é tranquilo. E quando algum alterado resolve bagunçar, o Grilo e seus asseclas dão um jeito de acalmar os nervos. Outra figura interessante é o Vidigal, uma mistura de padre com pastor. Reza todos os dias e gosta de pregar a “palavra”. Acho que ele tem um parafuso a menos. Deve estar próximo da aposentadoria, apesar de não fazer nada o dia inteiro. Mas nenhum deles se compara à Louca. Ela adora dar ordens. Insiste que somos seus pacientes, gosta de receitar comprimidos, injeções. Às vezes dá uma de psicóloga. E fica horas devaneando. Claro que ninguém dá crédito. Aceito as suas “consultas” para ver o belo par de seios. Ela abusa no decote, uma artimanha para arrebatar os pacientes. Esse é o segredo dos homens: os belos e firmes seios da “doutora Alice” — é assim que ela gosta de ser chamada.
A rotina empurrou o dia com a mesmice de sempre. Eu me preparava para deixar o trabalho, quando a noite começava a sorrir, ouvi um estouro. E em seguida, gargalhadas e música no volume máximo. Corri para o salão. Estava vazio. Percebi que vinha fumaça da parte de cima, da ala do serviço secreto. Procurei pelo Grilo, e nada. Eu estava sozinho. Mas afinal de contas o que estava acontecendo ali? Subi as escadas e vi fogo. Enormes línguas vermelhas comendo tudo em sua volta. Peguei uma cadeira e a joguei contra a janela. Enfiei a cabeça no buraco para respirar, foi quando vi luzes vermelhas piscando na escuridão da rua íngreme. Na calçada, de frente ao prédio de quatro andares em estilo art nouveau com suas flores e labaredas desbotadas, alguns curiosos observavam a entrada e a saída da polícia e dos bombeiros. Balançavam a cabeça de um lado para outro, como aqueles figurantes dos filmes e novelas. Mas não era obra de Sófocles, muito menos, Nelson Rodrigues. Era realidade. E doía na carne. O prédio estava em chamas. Notei que alguém gesticulava muito, apontando em minha direção. Eu tentava gritar, mas as palavras pareciam presas à minha garganta...
Acordei. Não consegui abrir os olhos, pareciam grudados. Senti um forte cheiro de cloro. Passei a mão pelo braço e notei que havia alguma coisa enfiada na minha pele. Ouvi vozes que não conhecia. Com muito esforço, consegui abrir o olho direito. Estava em um hospital. Um vulto de preto estava sentado próximo à minha cama. Acho que ele sorriu. Tentei retribuir, mas meus músculos não respondiam ao comando do cérebro. Doía muito.
— Como você está? ­— perguntou o vulto de preto.                                            
— Todo dolorido e... com sede! — respondi.
— Você se lembra do que aconteceu?
— Lembro do fogo e da fumaça... e das gargalhadas.
— Mais nada? — insistiu o homem.
— Pergunta logo o que quer saber — disse com certa rispidez.
— Sou o detetive Lavieiro, todos estão mortos e o prédio foi destruído pelo incêndio... achamos você desacordado, foi o único que sobreviveu...
Meu coração acelerou. Eu era o único sobrevivente! O que acontecera naquele lugar?
— O senhor teve contato com a doutora Alice no dia do incêndio? — perguntou o detetive.
— Há quanto tempo estou aqui?
— Três dias.
— Três dias?! Quem cuidou do Leopoldo durante minha ausência?!
— Quem é Leopoldo?
— Meu gato persa... ele é muito sentimental... — a agonia esmagava meu peito. Pobre Leopoldo...
— O senhor deve estar enganado... por favor, responda à pergunta.
Enfiei a mão na testa, buscando as memórias daquele dia.
— Não me lembro de ter consultado com a Louca... Mas me lembro do Gasparzinho falando que ela lhe receitara uns comprimidos e o Grilo estava mais agitado que o normal... Depois não os vi mais... Ah! Tem outra coisa importante... o Vidigal não pregou a “palavra” naquele dia.
— O senhor pode me dizer quem é a louca?
Eu ri. O policial não sabia do nosso código.
— A doutora Alice — disse doutora fazendo um entre aspas com os dedos — era conhecida como a Louca. Gostava de dar uma de médica...
O detetive Lavieiro olhou para o outro homem como se já desconfiasse da loucura dela. Minhas palavras ratificaram as suspeitas.
— E tem mais, a gente só consultava com ela por causa dos lindos seios... era o nosso maior segredo! Foi ela quem colocou fogo no prédio? Aposto que sim!
— Encontramos um bilhete... uma carta de despedida:

Até hoje me mantive sã... queria mudar o mundo! Queria que todos fossem tratados com igualdade; que existisse apenas fome de amor; que as guerras fossem apenas briguinhas de sexo entre quatro paredes... Respiro a loucura. Vivo a insanidade. Ouço nos discursos inflamados dos políticos a demagogia ziguezaguear em espirais de loucura e insensatez...
 Quem é louco?
Quem é são?
Concordo com meus pacientes:
eu sou a LOUCA!
Hoje todos descansarão. Viajaremos para uma galáxia distante. Lá é tão lindo! Flores brancas e roxas, passarinhos cantando, vaquinhas pastando a relva verde... o barulho da cachoeira de águas cristalinas correndo para o rio. Lá é proibido matar, roubar, mentir. Lá todos são loucos e poetas. É para lá que vamos!
Com amor,
Alice Medeiros,
Chefe do Setor de Psiquiatria do Manicômio Estadual.

As lágrimas escorreram sem atrito desaguando em meus lábios. Coitada da Louca. Quem em sã consciência escreveria uma carta assim?

13 de agosto de 2012

Espirais de Fumaça




Enquanto devaneio, a chuva lava as ruas da cidade que não para.
Tomo um gole de café quente. Forte e doce, do jeito que só eu sei fazer. Acendo um cigarro e deixo os dedos descansando sobre as teclas do computador.
Trago a fumaça e solto uma baforada de alcatrão, nicotina e outras substâncias prejudiciais à saúde. Sentado no sofá, pernas cruzadas, olhos perdidos no vazio, vejo a fumaça subir em pequenas espirais e se desfazer no percurso até se desmanchar no teto encardido do apartamento. 
Imagino a vida. 
Intensa no início e com o passar do tempo vai se esvaindo até se dissipar por completo. É a lei natural das coisas: nascemos, crescemos e por fim, morremos. Não adianta tentar pegar a fumaça! Ela escapa por entre os dedos.
 E nesse trajeto a gente aprende que as limitações nos tornam mais fortes e mais flexíveis. Que a falta de dinheiro nos ensina a pechinchar e eliminar o supérfluo. Que o cumprimento de um desconhecido nos faz sentir observado e importante. Que errar nos ensina a ter jogo de cintura. Que as pessoas preguiçosas são as mais criativas, elas inventam artifícios para ganhar tempo e facilitar a vida. Que quem muito reclama pouco produz. Fica preso às suas reclamações. Que engolir sapos não é tão ruim quando se têm objetivos. E devolver os sapos engolidos é bom demais!
Que chorar não lava a alma, dá rugas.
Que sentir raiva estraga o fígado e produz mau hálito.
Que um papo informal é muito melhor que uma conversa carrancuda e formal.
Que regras existem para serem quebradas, violadas, reinventadas...
Que um sorriso sincero é o mais belo gesto de amizade.
Que grandes amizades nascem em mesa de boteco.
Que um amor impossível nos faz enxergar a vida com outros olhos, nos motiva a encarar cada dia de forma única, nos permite observar os mínimos detalhes antes despercebidos pela nossa insensibilidade. Torna-nos mais vaidosos e preocupados com nossa aparência e bem-estar. Motiva-nos a ser sempre melhor, melhor em tudo, mais bonito, mais competente, mais atraente...
Até que encontremos um outro novo amor impossível...
E aí, começarmos tudo outra vez!
Que a vida é uma escola, e que seremos eternos alunos.
Que viver é ser, e fazer os outros felizes!
E isso é bom demais!
Lá fora, a chuva ainda cai, observo a fumaça do cigarro que está no fim... São apenas espirais. 
Espirais de fumaça.


10 de agosto de 2012

A Sinfonia do Caos


                                                                                     Hieronymus Bosch




O fedor era insuportável. Restos de comida espalhados pelas ruas imundas da periferia. O esgoto corria a céu aberto em pequenas espirais verdes e nojentas. Casebres de lona preta e lata, pau-a-pique e barro. Ruelas sem luz, chão de terra batida e encharcada de sangue. No ponto de ônibus um lençol branco manchado de vermelho cobria um corpo. Poderia ser um homem, uma mulher, uma criança, um velho. Poderia ser seu irmão, sua mãe, seu pai.
Mas era apenas um vulto sem vida.
Ivan Maciel, conhecido como Tijuana seguia sua rotina diária. Os ponteiros do relógio apontavam quatro da manhã. Ainda era noite e o frio de junho rompia a camada de napa da jaqueta desbotada, impregnando sua pele com um hálito gelado que ia até aos ossos.
Tapou o nariz e acelerou o passo.
— Infeliz! — disse ao passar pelo vulto.
Andou um quarteirão e apanhou o ônibus que levava à estação do metrô. Uma hora depois saltou no ponto de costume, desceu as escadas e se embrenhou por baixo da cidade. Sentiu-se como uma minhoca. Olhou para os lados e percebeu que não havia ninguém, pensou em pular a catraca. Economizaria o dinheiro do almoço. Olhou novamente para os lados, recuou dois passos. Comprou o bilhete duplo e foi embora.
Dentro do trem que ziguezagueava nos trilhos de aço, absorto em seus pensamentos refletiu sobre a armadilha que o destino preparara para aquele infeliz.
Quem era? Qual pecado causara sua morte? Rixa, disputa de poder, drogas, dívidas, luxúria, orgulho, mentira ou mesmo a preguiça?
Não obteve respostas.
Suas perguntas eram vagas demais, ele era vazio demais para entender a situação.
Tijuana era artista de rua. Um exímio e anônimo pintor. Tinha suas convicções e devaneios intelectuais. Talvez aquele complexo narcisista que todo artista tem. Adorava pintar abstrações, viajar no abstrato, nas suposições das coisas. Segundo ouvira dizer, nada é mais belo que o vazio. Detestava o renascentismo e dizia que o cubismo era apenas um meio-termo. Não gostava de fazer retratos, porém os fazia — aquela banalidade em tons pastéis e figuras patéticas com sorrisos plastificados era o que garantia seu sustento.
O trem parou na estação de costume. Preferiu subir os degraus — era avesso às escadas rolante, um luxo que não condizia à sua realidade. Lá em cima, deu de cara com a metrópole e o sol acariciou seu rosto com um calor gostoso. O barulho vindo dos quatro cantos da metrópole acariciava seus ouvidos. Era a sua música diária.
Era a sinfonia do caos.
Os arranha-céus pareciam monstros da Odisséia de Homero causando medo e vislumbre, encobrindo as nuvens e tapando o céu com suas sombras. Seu olfato já acostumara ao cheiro de ar reciclado e de enxofre despejados em torrentes. Era o perfume nauseabundo do progresso.
Tão diferente e tão igual...  Caos e luxo.  Ambiguidade? — pensou.
Uma cena perfeita. O cenário da miséria e do descaso. Da abundância e da globalização. Da seda e do saco. Do suportável e do insuportável.
Em sua mente um turbilhão de cores e sensações concretas. O embate entre ordem e desordem. Precisava mostrar aquilo. Precisava pintar.
Abriu a maleta, retirou os pincéis, a paleta e as tintas. Armou o cavalete sob a sombra de uma árvore. As duas mãos trabalhavam em ritmo frenético, alucinante. A sinfonia do caos penetrava em seu cérebro e como um maestro, regia seus movimentos, guiando suas mãos hábeis em traços perfeitos de tinta e fúria.
Era Hemingway escrevendo, abduzido por completo em seu mundo de devaneios. Era Freud tentando explicar sua psicanálise; Era Tarantino em Pulp Fiction,  Garrincha e seus dribles; Pelé e sua fome de gol; Era Roberto Drummond e Hilda Furacão; Era o grito da massa; O progresso do Brasil e a corrupção de Brasília. Era Milton Nascimento, Toquinho e Vinícius. Era o contraste de um povo e de uma cultura.
Um louco tentando fazer arte que ninguém entendia.
Os olhos faiscavam. A fome corroia o estômago. A miséria mastigava a alma. O amor era o ópio que entorpecia sua realidade.
Tijuana sentia a arte exalando do seu âmago cicatrizando suas mazelas e acalentando seus sonhos. Três horas e cinquenta e dois minutos, foi o tempo que pintou sem parar.
Estava finalizada.
Trapos e traços de cores. Mistura de sombra e luzes. Vermelho, preto, preto, vermelho, cinza, laranja, verde, amarelo, azul e branco.
Fogo e lama, água e pedra, ouro e merda, sangue e paz; caos, ordem e progresso.
Ele estava feliz.
Olhou orgulhoso, estufou o peito e sorriu. Um sorriso banguela.
A tela?
Era abstrata...

8 de agosto de 2012

Acaso lembra?

Imagem: Goya - Los Caprichos.


Lembra da última vez que sorriu...
Um sorriso de verdade?
Acaso lembra?


Lembra da última vez que disse a verdade...
A verdade propriamente dita?
Acaso lembra?


Lembra da última vez que amou...
Um amor que fez esquecer da realidade...
Acaso lembra?


Lembra da última vez que viu o sol nascer...
Sem antes olhar para o relógio...
E perceber que estava em cima da hora?
Acaso lembra?


Lembra da última vez observou um passarinho...
Livre,
Voando,
Entoando sua melodia de amor à vida?
Acaso lembra?


Lembra do último beijo apaixonado...
Daqueles que se beija com os olhos fechados...
Sentindo apenas o calor e frescor de um beijo de amor?
Acaso lembra?


Lembra da última vez que foi feliz?
Acaso lembra?

15 de outubro de 2011

O vento




Hoje pude sentir o vento.


Há tempos que não sentia o vento. Há tempos que ele, o vento, ficara lá do lado de fora, roçando outras peles, outros rostos, secando outras lágrimas.


Hoje pude sentir como é bom sentir o vento. Aquela brisa fresca que afaga, acaricia, como as mãos de quem amamos.

Estava preso. Minha prisão não tinha portas nem janelas. Não se podia ver o sol nem a lua e as estrelas. Não podia sentir o vento.


Minha prisão era eu mesmo.


Trancado, trancafiado dentro do meu próprio ego, dentro das minhas próprias dores e sofrimentos. Agrilhoado em lamentações, afogado em lágrimas que não sei bem de onde vêm.

O vento me trouxe de volta à vida. Mostrou-me que fora da prisão há um sol que brilha, uma noite com lua e estrelas e amantes, uma chuva fina que molha a terra fazendo-a germinar. O vento me mostrou que meu ego, egoísta, narcisista é apenas ego.


Nada mais.


Que minhas lágrimas serão apenas lágrimas, que minhas dores serão apenas dores. Simples. Não há como mudar.

Agora, liberto, sinto o vento. Vejo o vento. Não observo a vida passar.


Hoje, simplesmente, vivo a vida!

1 de setembro de 2011

Upa, cavalinho!





O homem velho não gostava de falar. Ficava o tempo todo mudo. Preferia os animais e seus cigarros enrolados a mão com precisão de máquina. Acho que ele conversava com a fumaça que subia em pequenas espirais, talvez, não sei, ela levasse consigo os segredos do velho homem.

Para ele, o dia se arrastava. Lentamente. Segundo a segundo que parecia contar. Eu via seus olhos, sem brilho, sem cor. Duas bolas de vidro trincadas. Eu via sua boca meio murcha, vincada e manchada pela nicotina de anos, se movimentar como se conversasse com alguém, como se quisesse, finalmente, falar. Mas não conseguia escutar o som de sua voz. Não. Não conseguia. O velho homem não gostava de falar.

Lembro-me de quando eu era criança. Gordinho, chorão e pirracento. Lembro-me do velho homem chegando em casa, trajando uniforme cinza com cheiro de suor, cigarro e de longe, uma fragrância de sabonete. Ele não era velho. Cabelos pretos, barba preta bem aparada, rosto sorridente e voz grave. Gritava meu nome. E eu corria para abraçá-lo. Sentia o gosto meio acre de suor, sentia o pelo da barba espetar meus lábios, mas não me importava. Esperava o dia inteiro por aquele momento. De repente ele ficava de quatro e eu montava em suas costas. Não fazia ideia do meu peso. E o homem magrelo suportava, sem reclamar.

— Upa, cavalinho! Upa, cavalinho! — era o que eu gritava entre gargalhadas.

O velho homem não gostava de falar. Ficava o dia inteiro enrolando seus cigarros. Abria o papelzinho, colocava uma medida de fumo, enrolava, e depois, com a língua umedecida, selava-os. Era sempre assim.

Fazia muito tempo que não ouvia sua voz. Eu me esquecera de como era a sua voz. Eu me esquecera de como era seu sorriso.


Eu me esquecera.

Assustei-me quando ele, o homem velho, tocou em meus ombros e disse:

— Por que não conversa mais comigo? — havia um brilho molhado em seus olhos. Não havia mais trincas. — Upa, cavalinho! Upa, cavalinho...

24 de agosto de 2011

O último beijo


O amor pode morrer? E como roubar o último suspiro?
A felicidade é como o vento: algumas vezes é brisa que afaga; noutras tormenta que mata.
Fui feliz um dia. E o vento acariciava meu rosto como as mãos macias de toda mulher. Se existe amor, aquilo que eu sentia era a sua mais pura síntese.

*****

Viagem planejada há mais de um ano: rota traçada e malas prontas. Tomaríamos vinho nas Serras Gaúchas, dançaríamos tango em Buenos Aires, esquiaríamos em Bariloche... Visualizava seus sorrisos de menina travessa em poses para fotografias com seus intermináveis biquinhos.

Aquela tensão pré-viagem me consumia. Queria que tudo fosse perfeito. Escolhi a dedo os cenários e o roteiro. Seria o filme das nossas vidas. E a cena final já estava escrita: nossos corpos nus, brilhando sob a chama da lareira, acalentados pelo fogo do vinho, eu faria o pedido:
— Aceita passar o resto de sua vida ao meu lado?
E ela já enrubescida e tomada pelos encantos de Baco, que descortinava sua habitual timidez, responderia sim com um beijo.

O Sol nem mesmo havia acordado e já estávamos na estrada. Ouvíamos nossa música favorita e os sorrisos pareciam fundidos num só, como nos álbuns de casamento.

Uma moldura de árvores que cresciam em linha reta, quase arranhando o firmamento, enfeitava nosso caminho. Eu a observava no banco do carona: boca e olhos semicerrados esboçavam um sorriso, mostrando a tênue linha que separa realidade e sonhos. Meu Deus, como era linda!

Não tínhamos ido muito longe, uma cortina de névoa subia pelo asfalto ofuscando a visão. Um caminhão estava parado no acostamento. Alguma pane, ou algum gigante poderoso e cruel o colocara ali, naquele ponto cego da rodovia. Quando vi aquele monstro de aço, busquei o pedal do freio, senti que não conseguiria parar, então desviei bruscamente para a esquerda...
Nem mil anos apagará de minha memória o barulho daquela madrugada. Os pneus cantando uma música fúnebre, os vidros estourando, rasgando minha carne, o carro girando, girando... Não sentia dor, só medo e pavor.
O grito doloroso que ouvi antes de tudo apagar, matou o que restara de mim.

Quando acordei o mundo estava de cabeça para baixo, pessoas por todos os lados. Luzes vermelhas piscavam, vozes engroladas balbuciavam coisas ininteligíveis. Só havia vultos distorcidos em minha frente. Imagens borradas. Algo quente e viscoso escorria por entre meus olhos, fundindo-se às lágrimas inconscientes que desciam pela minha face lívida e horrorizada.

Mas de algum modo encontrei meu amor naquela manhã...

Um pouco à frente, pude vê-la. Arrastei-me por alguns metros, sem me importar com o aço retorcido dilacerando meu corpo. Ela estava deitada sobre o tapete verde de relva encharcada de sangue. Ergui sua cabeça e seus olhos encontram os meus. Seu rosto emitia uma sensação indescritível de paz, com um sorriso no canto dos lábios, balbuciou:
— Abrace-me querido, apenas por um instante...

Minhas mãos trêmulas e titubeantes ganharam forças que não consigo explicar. Aninhei-a em meus braços num abraço apertado, tentando em vão doar minha vida. Beijei-a como deve ser um beijo de amor: intenso e pausado, olhos fechados, respiração lenta. Podia sentir sua vida esvaindo...

Nosso último beijo.

O amor morreu e eu roubei seu último suspiro.

Conto baseado na letra Last Kiss de Pearl Jam.

27 de novembro de 2010

Passagem Proibida


Um adeus mudo como uma imagem refletida no espelho. Assim despediu-se da vida. Lábios retesados e alguns dentes amarelos à mostra formavam uma careta de dor e culpa.

Era inverno. O frio cortante rompia a camada de napa da jaqueta esfarrapada trespassando a pele, a carne, fazendo os ossos doerem. Tomou um gole de café para espantar o sono de uma noite maldormida. Apanhou a mochila, beijou a filha que dormia na serenidade infantil, encolhida sobre o estrado de madeira forrado com papelão e coberta por um pedaço de pano raso. O ursinho de pelúcia, sem os olhinhos e o nariz, agarrado ao corpo, era a única coisa quente que sentira naquela época do ano. Olhou para cima, a fuligem que impregnava o teto cheio de gretas formava uma espécie de pintura rupestre. Talvez, naquele momento, quisera ter tido uma sorte melhor: uma casa confortável, uma cama e um sofá, uma TV em cores, uma geladeira com um pinguim em cima e comida dentro. Queria ter aprendido a escrever seu nome e poder ajudar a filha nas lições escolares. Uma lágrima viscosa desceu lentamente pela face encardida. Suspirou e saiu.

A ruela de terra batida absorvia os dejetos da comunidade. Vira-latas, ratos, baratas e urubus rodeavam o córrego a céu aberto em busca de comida, de sobrevivência. Um lençol branco encobrindo um corpo no canto da rua apresentava manchas vermelhas e pretas. Ele balançou a cabeça. Mesmo acostumado àquela cena cotidiana, era difícil entender tanta violência.

Falta de caráter ou de sorte? — pensou.

Andou por meia hora até o ponto de ônibus que o levava até à estação do metrô. Quarenta minutos depois saltou pela porta de trás, se embrenhando por debaixo da cidade. Parou em frente à catraca. Pensou em pular, economizaria o dinheiro do almoço. Deu dois passos para trás, comprou o bilhete duplo e foi embora. Sentiu-se como uma minhoca serpenteando por baixo da terra.

O trânsito estava parado. Buzinas, gritos, exaltação. Balbúrdia. Caos.

Uma placa gritava em letras garrafais:

PASSAGEM PROIBIDA!

— Não tenho grana pra comprar... seja lá o que for! — resmungou, enquanto seguia seu caminho.

Ouviu gritos. Pessoas correndo. Alguns pulavam, outros se jogavam ao chão. As sirenes das viaturas policiais urravam e os estampidos de tiros zuniam. Tentou correr. Tentou pular...

Na altura do peito, sobre o coração, a carne queimava. Uma nuvem cinza caiu sobre as retinas.
Fecharam-se as cortinas da vida. Abriram-se as cortinas da morte. Sua última cena, seu último ato na tragédia da existência.

No jornal do dia seguinte, uma notícia de rodapé nas páginas policiais:

Bala perdida mata trabalhador da construção civil.

E ele só queria uma casa confortável...

25 de maio de 2010

Conte-me seus segredos

Ela observava a fumaça do cigarro subir em pequenas espirais azuis até se estraçalhar no teto encardido do apartamento, sua única distração naquele entardecer de domingo. A TV desligada. Não gostava de futebol, tão pouco dos programas dominicais. O ócio e o tédio faziam-lhe companhia. Sua imagem refletida no espelho, os contornos suaves de seu rosto encantavam e enfeitiçavam. E seduzida por seus reflexos, tal qual Narciso, resolveu mostrar-se. Precisava da noite, necessitava de ar, de gente.

Uma chuva fina caía sobre a Savassi, encobrindo de negrume o céu belorizontino, escondendo as estrelas e apressando a noite. No bar, homens e mulheres se espremiam em busca de um lugar, de um sorriso, de calor humano.

Ele estava sentado na mesa de sempre, junto à varanda, precisava de oxigênio natural e não reciclado. Os olhos perdidos na imensidão do horizonte demonstravam certa tristeza. Ansiava vê-la. Admirar a beleza que o encantara por vezes seguidas. Queria sentir o sangue novamente em suas veias. Já sabia seu nome. Já sabia quem era.

Ela vestiu-se com esmero e sutileza realçando ainda mais sua beleza juvenil. Longos cabelos loiros emolduravam seu rosto bonito. Traços finos, pele rosada e bem cuidada. Olhos azuis intensos. Passou por ele, passos cadenciados e firmes, numa sinfonia de graça e charme. A calça jeans ajustada ao corpo mostrava uma silhueta perfeita de pernas e quadril. No seu rastro invisível, podia sentir as notas florais do perfume destoando do cheiro nauseabundo de alcatrão e nicotina que impregnavam o ambiente.

— Desculpe-me a ousadia, está esperando alguém?

Ela olhou como se já esperasse ser abordada. Lançou-lhe um sorriso branco e encantador, mostrando dentes perfeitos.

— Não. Resolvi admirar a noite.

Ele sentiu uma pontada de satisfação.

— Uma bonita frase. Posso dizer que sou um íntimo admirador dessa dama. Posso fazer-lhe companhia?

— Impossível!

Aquela negativa abrupta deixou-o atônito. Seu rosto enrugou, parecia ter envelhecido cinquenta anos em um segundo.

— Uma lenda grega conta que Nyx, a deusa da noite e dos segredos, amaldiçoa quem compartilha a noite escolhida para admirar...

— A domadora de homens e deuses? — ele sorriu.

— Entende de mitologia?

— Não. Entendo de segredos e de belas mulheres.

Olharam-se por alguns longos instantes. Cada um tentando articular uma frase de efeito. Estudando-se como se fossem adversários em um jogo de pôquer. Um blefe errado e todas as fichas estariam perdidas.

— Laila Katina. - disse por fim.

— Roberto Drummond.

— O criador de Hilda Furacão?

— Apenas uma feliz coincidência!

— E o que o traz aqui essa noite?

— Talvez medo de ficar em casa sozinho, fazendo companhia à minha garrafa de vinho e meu computador...

— Acho que compartilhamos do mesmo dilema.

— Vinho e computador?

— Não. Cigarros e sofá...

— Não gosto de cigarros... Mas, sofá é mal necessário. E o que mais faz quando não está fumando no sofá?

— Sou jornalista. Do caderno de economia...

— A senhora dinheiro! Muito bem. Então, fica fumando sentada no sofá e escrevendo sobre economia? É uma odisséia de altos e baixos...

— Engraçado, não havia percebido essa sutileza... E você, além de se embriagar com o vinho na companhia de seu computador e de fazer piadas com os outros, o que mais faz?

— Nada.

— Como nada?!

— Não gosta de segredos? — respondeu com outra pergunta.

— Gosto, mas não de estranhos.

— Os melhores segredos são de estranhos. Segredos de conhecidos passam a ser nossos... E já carregamos segredos demais, não acha?

— Então você carrega muitos segredos?

— Nem muito, nem pouco. O suficiente para quase perder uma vida...

— E um segredo vale uma vida?

— Depende do segredo e da vida... No meu caso, vale.

— É casado?

— Já fui... E você?

— Não tenho idade para isso. E nem saco!

Uma bela resposta! Se tivesse pensado assim quando era da sua idade, não teria cometido tal insanidade... — disse sorrindo.

— Foi tão ruim assim? — ela deu uma gostosa gargalhada.

— Isso já é outro segredo, mas dá para perceber a delicadeza da situação nas entrelinhas...

— Você ainda não falou do seu segredo maior, aquele que vale uma vida.

— São duas vidas...

— Duas?

— A minha e a sua!

Laila arregalou os olhos. Nunca fora de dar atenção a estranhos. Preferia ficar em seu apartamento ouvindo suas músicas, cuidando de sua pauta, de suas matérias. Às vezes alimentava seu blogue na internet, falando de futilidades, dando dicas de como conquistar o homem dos sonhos - quando ela mesma não sabia como fazer. Às vezes escrevia alguma crônica criticando a sociedade, a falta de cultura, o descaso de quem governa. Às vezes inventava um amor para chamar de seu.

Recatada, seu último namorado fora no tempo da faculdade, e isso já fazia mais de um ano. Frequentava algumas festas. Sempre cortejada, assediada e invejada por sua beleza, mas preferia a solidão. Ninguém era bom o suficiente. Resolvera trancar-se em seu mundo e observá-lo sob sua ótica racional. E logo naquele dia que resolvera buscar sentido para sua existência, dar vazão aos sentimentos reprimidos, aparece um desconhecido falando em tom ameaçador. Suas pernas estremeceram. Pensou em gritar, fazer um escândalo, mas sua voz emudecera como se fosse roubada, arrancada à força de sua garganta. Num átimo tentou levantar-se, mas não conseguiu.

Roberto por sua vez sempre fora um homem da vida. Boêmio por natureza, amante das artes e das mulheres. Não abria mão de um bom vinho, nem do teclado de seu computador, onde tecia estórias, costurava retalhos de imaginação, criando romances e contos que embalavam suas noites de insônia e geravam seu sustento. Era um artesão da palavra. Gostava dos flertes e vangloriava-se do seu poder de persuasão. Era fluente em todos os assuntos: de moda à economia; de religião à bruxaria; de política à literatura. Recitava poemas, sussurrava músicas, mandava flores. Enfim, vivia sua vida da maneira como gostava, sem muitas preocupações. Porém, aquele dia era diferente, aquela mulher linda prostrada em sua frente mexia com todos os seus sentidos, despertava sentimentos incompreensíveis. Relutara por meses em se aproximar dela até que decidira finalizar o último capítulo do romance de sua vida.

— Você é louco?! — Laila tentou levantar-se.

— Por favor, espere — disse segurando seu braço.

— Olha, não o conheço e tão pouco dei liberdade para fazer esse tipo de brincadeira. Por favor, saia da minha mesa, ou terei que chamar o segurança...

— Não queria saber o meu segredo? Meu segredo é você...

— Como posso ser seu segredo?

— Um segredo que separou nossas vidas...

— Quem diabos é você?

Uma lua majestosa abrira-se de repente no céu da Savassi derretendo-se em halos dourados. Roberto não suportaria mais aguardar por aquele ponto final. A sagacidade esvaiu-se, e uma necessidade urgente de colocar para fora o segredo de sua vida, obrigou-o a falar de uma vez, sem rodeios, como toda a verdade deve ser dita; como todos os segredos devem ser revelados.

— Sou seu pai.