27 de março de 2010

Homem não chora


Acordei com uma sensação esquisita. A boca tinha gosto acre, não sei de que. Não era ressaca, com certeza. O coração batia acelerado bombeando mais sangue que meu corpo magrelo comportava. Puxei a cortina e o sol entrou como um vendedor tresloucado, gritando, cuspindo na minha cara. Uma cegueira momentânea. Voltei com a cortina pro lugar. A penumbra nunca fora tão benquista.

As imagens do passado vieram como num filme de Chaplin, em preto e branco, mudas, apressadas e aos poucos se tornaram lentas, quadro a quadro. Lá estava ele. Sorria. Dentes amarelados pela nicotina do vício que estampava um sorriso branco, imaculado. Tenro. Pude ouvir o som da voz suave e forte que emitia palavras inteligíveis. A mão tremia um pouco, os cabelos ralos e brancos desnudavam a testa protuberante. Aproximei-me. Podia sentir o calor do seu corpo e o cheiro de cigarro de palha. Pigarreou. E sorriu novamente. Levantou-se e veio em minha direção. O barulho descompassado que ecoava em meu peito arremeteu-me de volta ao quarto escuro.

Busquei em alguma parte da memória quando eu fora alguém de verdade. Quando não vivi nas sombras das muitas mentiras que contava. Incomodava. Às vezes. Sem pestanejar enfiei a mão por baixo do colchão e peguei um cigarro no maço, a chama do isqueiro balançava com os solavancos que meu corpo emitia, por fim, consegui acender. A fumaça impregnou o minúsculo cômodo. Ouvi um esboço de tosse. Talvez algum pulmão comprometido. Fechei os olhos. E o filme voltou no lugar que parou: ele veio em minha direção. Sabia o que ia dizer. Não era homem de meias palavras, nem de conversa fiada. Eu estava parado. Inerte como um boneco de neve daqueles que a gente vê nos filmes americanos. Um boneco de gelo, magrelo, sem movimentos e sentimentos. Ele estava mais perto. Podia ver os traços do seu rosto, os sulcos vincados de sua pele encardida. Ele me encarava. Seus olhos penetravam minha alma. Sorriu de novo. Aquele sorriso sincero. Todos sabemos quando um sorriso é sincero ou não. E aquele era. Na sua mais pura síntese. Pude ouvir o último som que saiu de sua boca:

— Homem não chora. Faça seu trabalho, pistoleiro.

Vi apenas o cabelo ralo se levantar e tingir-se de vermelho. Uma lágrima viscosa teimou em sair pela minha face. E ouvi a voz mais forte sussurrando em meu ouvido:

Homem não chora... Homem não chora...